TEMA SAUDADES

011 - GIRAR O PESCOÇO

 

Girar o pescoço 
Volver o pé o ponto 
Retornar o corpo 

Voltar 
Com sapatos encharcados 
de água - escorregadios
e olhos rasos do longo exílio 
Voltar e Voltar 
Com pouca alegria 
Com dedos cerrados 
Com o braço torcido 
Sem júbilo. Sem triunfo 
Com o rosto atordoado 
de esquecimentos 
e a alma devastada 
de lembranças 

Voltar 
como quem, com pressa, 
a avenida movimentada, 
sem cuidado, atravessa 
Voltar 
como a barca tombada 
é arrastada à praia 
Voltar 
só para ter a desculpa 
de se ir mais uma vez, 
sem tanta culpa 

Voltar 
para se ferir 
para se magoar 
para se mentir 
para se provar 
que se não há 
outro lugar no mundo 
para estar, cá 
também não é seu lar 
Voltar 
como quem recua 
como quem retrai 
como quem escava com os pés 
como quem acorda 
no leito de um rio 
entre duas margens vazias 
Voltar 
para se buscar 
para se socorrer 
para se levar 
sem alternativa 

Voltar 
ao início 
para não se acabar 
Voltar 
ao término, 
só para recomeçar 
Voltar 
quando não se pertence 
a ninguém 
e ninguém o tem

Voltar como a flor

que sabe o fruto verde

que sabe o maduro e sabe a folha
Voltar

quando não se tem escolha

e não se atravessa paredes

 

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